Um vídeo curto, uma “pessoa” sorridente e carismática, um roteiro bem escrito — e milhares de curtidas em poucos minutos. Só que essa pessoa nunca existiu. No Brasil, avatares 100% gerados por Inteligência Artificial já acumulam milhares de seguidores no TikTok, no YouTube e no Instagram, e viraram um negócio real: publicidade, comissão sobre vendas, divulgação de infoprodutos e até revenda do próprio perfil já fazem parte da rotina de quem cria esses personagens sintéticos.
Como o negócio funciona na prática
A lógica é simples de escalar: um único roteiro pode ser adaptado e narrado por dezenas de avatares diferentes, cada um com rosto, voz e sotaque próprios, alcançando públicos e idiomas diferentes a partir do mesmo conteúdo original. Parte desse volume de vídeos gerados por IA — apelidado de “AI slop” quando é feito às pressas e com pouca qualidade — serve justamente para bater os requisitos mínimos de monetização de plataformas como o YouTube (4 mil horas de exibição e mil inscritos), o que ajuda a explicar por que tanta gente está testando esse modelo agora.
O lado que exige atenção
Nem tudo nesse mercado é inofensivo. Fernando Ferreira, pesquisador do NetLab/UFRJ com doutorado em IA, tem estudado como esses avatares já foram usados para promover remédios sem qualquer comprovação científica e espalhar conteúdo enganoso em nichos sensíveis, como saúde — casos em que seguidores confiam no personagem como confiariam em uma pessoa real e podem, inclusive, abandonar tratamentos legítimos por causa disso. Outros especialistas ouvidos pela imprensa também chamam atenção para o problema: Luã Cruz, diretor de litígio da organização Ctrl Z, a advogada especializada em segurança digital Gisele Kauer e o pesquisador Diogo Cortiz, da PUC-SP, que estuda o tema da “intimidade artificial”, alertam para erros factuais e históricos nesses conteúdos, para a manipulação algorítmica que explora medo, curiosidade e esperança do público, e para o efeito de criar padrões estéticos inatingíveis, que aprofundam insegurança e sofrimento psicológico em quem consome esse tipo de conteúdo com frequência. Do ponto de vista legal, usar um avatar de IA para enganar deliberadamente o público pode configurar estelionato, falsidade ideológica ou até exercício ilegal da medicina, dependendo do caso — crimes previstos no Código Penal brasileiro.
Como usar essa tecnologia com responsabilidade
- Deixe claro para o público que o personagem é gerado por IA — a maioria das plataformas já exige algum tipo de identificação para esse tipo de conteúdo.
- Escolha um nicho de entretenimento ou educação, onde um erro de informação não coloca ninguém em risco real.
- Trate o avatar como um projeto de conteúdo de verdade, com estratégia e consistência — não como atalho para enganar audiência ou vender algo que você não entregaria com o próprio rosto.
- Evite por completo nichos de saúde, finanças ou qualquer área onde uma informação errada pode causar dano real a quem assiste.
Avatares de IA são, ao mesmo tempo, uma oportunidade de monetização real e um espelho dos riscos que a Inteligência Artificial generativa traz para a comunicação digital. Antes de criar o seu — ou de confiar cegamente no próximo influenciador “perfeito demais” que aparecer no seu feed — vale a pena entender os dois lados dessa moeda.
Fontes: O Povo, Correio do Brasil

Deixe um comentário